2006-08-29

On the road...


Viajamos felizes. Na rádio, sempre, música tradicional irlandesa. Perdemos a conta do número de Kms percorridos nas estradas sinuosas, estreitas, vertiginosas e decoradas com mantos de verde, de cabras e de vacas. Em todo o país há aproximadamente 70 Kms de auto - estrada. Mas as estradas nacionais parecem cumprir o propósito de nos obrigar a viajar devagar e a olhar atentamente esta Irlanda. Cruzamo-nos com homens e mulheres simpáticos e amistosos rodeados de filhos. Bebés de grandes olhos azuis e de sardas elegantes a pintalgar sorrisos abertos. Descubro uma Irlanda rural. Assumida e orgulhosa. O dinheiro, proveniente de Fundos Comunitários, foi aplicado num investimento sério na tradição rural, na reformulação e ampliação de grandes áreas latifundiárias. As habitações foram, também, presenteadas com reconstruções e por todo o lado, em todas as colinas, há um Bed & Breakfast que acolhe, que recebe bem. Parece haver, sempre, uma mensagem que apela ao visitante a vir conhecer o País. Uma das principais companhias de aviação de Low – Coast, a Ryanair, encarrega-se de trazer turistas. Os castelos em ruínas, as ovelhas, os campos a perder de vista, o imaginário das lendas celtas e o acolhimento do povo com um pint de Guiness na mão encarregam-se de nos embebedar de desejos de regresso.

(fotografia do Matvei)

2006-08-18

Quem Morre?



Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
Repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
quem não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os “is”
em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos
dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permita pelo menos uma vez na vida fugir de conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

(Procuro evitar esta morte suave! Partimos amanhã para a Irlanda. Na mochila levo livros e na boca músicas gravadas em suporte emocional.)

2006-08-17

E o Dr disse...

O Dr. descalçou rapidamente as luvas com que tinha analisado o pé e disse: “é um eczema de contacto”. Sentença atribuída. Sem lugar a defesa. Estava dito. Levantei-me rapidamente. Calcei as sandálias e segui-o, rapidamente, consultório fora. Sim, rápido porque já tinha passado a hora de jantar. E o Dr. tinha olhar de cansado, com ânsias de se deitar, talvez na marquesa onde me tinha examinado. Teclou a receita, assinou-a. Reparei, pela primeira vez, que é esquerdino. Despediu-se muito educadamente e fechou a porta do consultório. Mas eu queria falar. Olha-lo nos olhos. Fazer justiça às duas horas que tinha estado à espera a ouvir as “conversas” dos Morangos com Açúcar, a ouvir os comentários atrevidos de um senhor à companheira (Sim, eu não preciso de incentivos, pois não?) a propósito do aumento do volume de compra de produtos nas SexShops. Queria fazer render os 70 Euros e já agora estar lá mais do que 10 minutos. Agora, resta-me investigar qual o sapato a expulsar!

2006-08-16

Antes de partir para a Irlanda…


A história parece repetir-se, ciclicamente. Como se fosse um novo filme. Alteram-se os cenários e os actores. Maquilha-se o argumento, de modo a permitir legitimar decisões, e o resultado parece ser em tudo idêntico: guerra, crueza, obscuridade, vidas estropiadas. A principal sensação, no final do Brisa de Mudança (no original, The wind that shakes the barley), foi a de sentir que acontecimentos passados nos anos vinte podem repetir-se. Repetem-se. Repetem-se, diariamente, enquanto como cereais. O filme retrata a luta pela independência na Irlanda do Norte. Retrata, especificamente, a alteração dos laços de uma rede familiar que parecia construída numa base de empatia e relação significativa. O cruzamento de convicções diferentes termina numa execução violenta e densa. Ontem encerrei o dia inebriada: pela fotografia belíssima e por uma densidade emocional que ainda estou a digerir.

2006-08-14

Como turista no Porto



Este fim–de–semana voltei a olhar a Porto sob o olhar atento de turista.
Vesti vestido, calcei sandálias e caminhamos longamente. Recebemos uma vista especial, de uma amiga especial, para esta caminhada. Subimos a Torre dos Clérigos, espreitamos a Livraria Lello, descemos à ribeira pelas ruelas de S. Bento da Vitória, bebemos refresco na Praça do Cubo. Pela primeira vez, subi no Funicular dos Guindais e assomamos rapidamente à Praça da Batalha. Visitamos a Igreja de S. Francisco, fomos Douro acima e passamos mesmo debaixo das pontes, das seis pontes que ligam o Porto e Vila Nova de Gaia, passeamos nos Jardins de Serralves e experimentamos fotografias na Casa da Música. O número de turistas é encantador. Ouvem-se línguas diferentes, as ruas adoptam densidade de cidade grande, os empregados de mesa da ribeira reclamam dos pedidos, os turistas trocam de mesa na esperança de serem atendidos, melhor atendidos, também. Mas esta é uma mera ilusão. Parece que a Ribeira sobrevive. Presta pouca atenção a quem os visita, a quem alimenta a continuação deste espaço. Não cuida, não acolhe. Os putos saltam da ponte D. Luiz e o povo pára para ver, reclamam celeridade e espectáculo no salto. Os turistas fotografam.
A noite, e ligeiramente fora do circuito turístico, foi muito agradável. O jantar, também com a presença da amiga mic`s, foi acolhedor e risonho. Pela noite dentro dois lugares de eleição, eleição subjectiva obviamente. O meu Mercedes é melhor que o teu e o Blá, Blá. Gosto da sensação de estar num sítio em que sinto que é, também, meu. E por isso, sentimo-nos à vontade para tirar os sapatos e dançarmos descalços. No Blá, Blá criou-se, então, um monte de sapatos e à volta dele dançamos como se este fosse uma fogueira de S. João.

2006-08-11

Tercigirls



Este ano, e ainda que não estejamos já no final dele, tem sido deveras estranho. Repleto de acontecimentos pouco satisfatórios e que apelou a um sentido feroz para não desarmar as barreiras da resistência. Talvez a principal e a mais dolorosa mudança esteja relacionada com a saída da equipa das Tercigirls. Continua a ser difícil, quase volvidos nove meses, não seguir caminho para a Rua do Rosário, não ir fazer compras à Tia Avelina e tomar café ao Avô Albino. Como se ainda não me tivesse desvinculado desse espaço construído por canecas de animais diferentes, por uma lata de rebuçados a servir de cofre, por músicas feitas à medida de acontecimentos diários, por almoços de partilha de conversas, de silêncios, de cenouras e queijo fresco.
Tolhe-me os sentidos não partilhar diariamente essa vida. E o sentimento de perda é acutilante e manifesta-se em olhos lacrimejantes, em silêncios perdidos e incontroláveis. O saldo desse percurso jamais o saberei contabilizar. Porque não sei contabilizar aquilo que gosto e quem se ama.

2006-08-10

Dafalgan




Sinto-me cansada de ter, sempre, dores de cabeça. É raro o dia em que não seja perturbada por uma leve ou uma intensa cefaleia. Sei já identificar os motivos: cansaço, falta de sono, sintomas das minhas amigas sinusite e rinite alérgica, reacções ao calor. E sei identificar os motivos através da zona onde esta se instala.
O mais comum é adormecer e acordar sem que a dor tenha passado. Lembro-me de ter dores de cabeça desde sempre. Mas estes últimos dias têm batido o meu recorde de tolerância. Caminhar, levantar-me, ir ao ginásio tornam-se tarefas dolorosas e insuportáveis. Sobrevivo a Dafalgan, que a amiga Mic`s me deu. Ontem, fiz questão de ir comprar uma caixa, só para mim! Sem me preocupar com a lista de contra - indicações e precauções. Desespero pela sua actuação rápida no SNC. Desespero pela acção analgésica.

2006-08-07

Sintra


Texto romântico escrito a verde.
Dormida sobre o Mar da Praia Grande.
Igrejas, palácios e quintas senhoriais.
Palácio da Pena, Palácio de Seteais, Quinta da Regaleira, Quinta de Monserrate.
Travesseiros e Queijadas na Piriquita.
Camarão e sangria no Búzio (Praia das Maçãs).
Cumplicidades construídas.

2006-08-03

Regresso à Padrela e ao Alvão.

Sou mimada com alheiras, carne assada, arroz de forno, pataniscas e muitos doces. Também me acolhem em colos descobertos e atentos. Com suspiros luminosos, com atenções delicadas. Os odores de festa são-me familiares. Cheira a vinho derramado nas canecas, ao forno de lenha na cozinha e às muitas conversas paralelas. Os pais Mouta brilham numa cumplicidade enternecedora. E eu brilho na paz de estar em casa.

2006-08-02

Rio Minho


Sábado de sol. Bacia hidrográfica do Rio Minho. Isto não é um passeio, dizia o Biólogo. Nem era uma aula, acrescento eu. A dinâmica parecia associar-se a algumas das minhas sessões com os Adultos. Sessões de Formação. Sessões de Educação e Formação de Adultos. O ponto de partida foi a bagagem de experiências que cada um de nós trazia. No barco de borracha um grupo de Adultos constituía-se como grupo de formação. Ou grupo familiar, se quisermos. No barco de borracha o Biólogo ia questionando sobre aquilo que sabíamos sobre o rio de Minho. Os mais velhos, fruto de um ensino primário com conteúdos diferentes dos actuais, iam respondendo ao “professor”. Com respostas mecânicas. Memorizadas numa rede de saberes que de imediato adquiriam, afinal, utilidade. Como se fizesse, agora sentido, saber onde nasce e desagua o rio.
Essa rede, a dos conteúdos escolarizados, memorizei e talvez os tenha esquecido com a força da não utilização. Mas, o sentimento da descoberta, da surpresa e da partilha não irei, certamente esquecer.
Não era de facto um passeio, nem era uma aula. Foi, talvez, uma sessão em que todos nos formamos. Restaria perceber qual o significado e a representação que cada um de nós elaborou desse dia.