2007-04-16

Fim de tarde

Cat Power a permitir-me desenhar pensamentos fugidios, a sonhar este sol noutras paragens, a aquecer-me entre as pedaladas ritmadas de quem é livre. Aumento ainda mais o volume para que ele me circunde concentricamente em satisfação. Repito o refrão várias vezes, e outras tantas vezes, obcecada pelo som, pela tensão que produz, pelo desejo de me amornar nesta claridade de fim de tarde. Desenrolo-me no tempo a passar e na imagem de mim em pleno rio, a ondular suavemente, a sentir o Porto, a ouvir as conversas dos outros. Desprendo as amarras austeras do dia e deixo brilhar o sorriso de quem é feliz.

2007-04-14

2007-04-07

Domingo em Lamas




Pela mão meiga da Vivi entro no museu. Há um cheiro desgastado pelas visitas, pela arrumação que provavelmente nunca aspirou a ser rigorosa, metódica e cirúrgica de outros museus. As colecções atraem-nos pela diversidade sem que haja, aparentemente, uma lógica de organização. O mobiliário, a pintura e a cerâmica parecem cobertos por uma manta magnífica de talha dourada.
Ao longo das dezasseis salas que percorremos parece haver a presença constante do seu fundador Henrique Alves de Amorim. Parece que este está presente em cada peça que ali se demora. A sensação é a de que aquele espaço continua a ser um espaço privado e íntimo e que quase se confunde com um quarto /casa onde o seu fundador abrigou os brinquedos mais preciosos. A sua presença é constante. As suas iniciais recordam-nos de que somos meros visitantes e na sala laboriosa dos retratos quase que sugere que nos vigia, que nos olha enquanto telefona, assina documentação ou olha para a terra que impulsionou a crescer.
O Museu de Santa Maria de Lamas é comummente designado por Museu da Cortiça. Há, pois, no meio da exuberância do ouro, um pavilhão imenso com diversas peças de cortiça. É preciso um olhar atento para descobrir a preciosidade dos diversos elementos. Neste pavilhão, onde o sol atravessa o telhado de vidro, tudo parece desamparado e largado. O sentimento maior é o de que este espaço está desvalido e infeliz e que continua a acumular o pó que o seu fundador, falecido em 1977, não pode mais limpar.