2007-03-21

Serém

Respiro. Transpiro e respiro em profundidade o timbre de um sol aberto e claro. Sem pressas e atenta aos nadas do dia. Vou-me libertando das actas, das fichas de inscrição e da base de dados. Vou-me aliviando das histórias dos outros e concentrando-me na minha própria história: a dos projectos e dos desejos. A narração partilhada ao longo do rio, da lama e das silvas é interrompida pelo barulho, ao longe, do comboio que se deita vagarosamente sobre uma linha envelhecida. Deste passeio resulta uma marca no joelho que parece indelével e que permitiu, depois, a criação de uma fábula.
À noite dançamos funaná, tango e mornas. O vapor dessa ebulição é um ambiente sereno, intimista e de conhecimento mútuo que se prolonga no abraço de despedida. Há ainda tempo para explorar e recolher laranjas do vizinho, para espreitar as aromáticas dos nossos anfitriões, para sermos mordidos pelos mosquitos, para sonhar com a figueira que se estende ao longo do jardim e para desejar permanecer por mais tempo, muito mais tempo, em boa companhia.