2017-05-21

A PERNA ESQUERDA DE TCHAIKOVSKI


Aparentemente, um ensaio de ballet. O pianista, o “afinador de pianos”, confirma que acederemos à trajetória pessoal da bailarina e do que antecede e precede cada apresentação em palco. Vemos como se calça, e só calçará o pé direito, como aperta as fitas de seda em torno do tornozelo. Explica como coser e voltar a coser os elásticos que a acompanham desde sempre. Saberemos da infância, das horas intensas de repetições para a perfeição, das lesões duras, das conversas com os pés e das tantas promessas de se curvarem a uma última atuação.

O espetáculo "A Perna Esquerda de Tchaikovski", tem texto e encenação de Tiago Rodrigues, música de Mário Laginha e interpretação de Barbora Hruskova, bailarina da Companhia Nacional de Bailado.


Em palco, repetirá trechos de “Giselle", de quando se despediu e terminou a carreira, do “Lago dos Cisnes”, de “Romeu e Julieta", … Sempre e só com o pé direito calçado. Emergirá sempre a voar, como se não existisse dor, como se não estivesse unicamente apoiada num único pé, e assim acedemos a esse universo interior, e vemos pela primeira vez as estrelas de que nos fala, quando em criança fantasiava a partir da sua janela. 

2016-05-17

A amiga genial

No bairro, duas raparigas assistem a violência e confusão, querendo diferente. O conflito sempre presente entre a pobreza e o poder. O poder de poder comprar, mandar fazer, mandar estudar, ou não mandar. E o regresso a casa para cuidar dos mais pequenos. Ou a entrada na oficina, onde ousa pensar em  construir, manualmente, sapatos. Inovar para sobreviver. Mas como se incorpora querer fazer diferente?
Nesses sapatos já calçados, depois de imaginados e cosidos a mão, o símbolo do poder e de uma submissão que não se arqueia. Ao longo das páginas, a força de uma pequena rapariga agreste, quase selvagem e inteligente. A outra rapariga, doce e delicada, em transformação. Em aquisição. Em desocultacao.
No bairro, onde quase vivemos durante 200 páginas, o desígnio da submissão para sobreviver.  E a única submissão aceitável parece ser o assumir o papel de mulher antes do tempo, transformando-se assim em senhora que poderá, eventualmente, poder decidir. Mas como decidir quando o seu esforço é calçado pelo inimigo?

2016-04-20

Como me cubro? Como enfrento a rua? "É só avançar até a padaria!  "
espero... "Não paragens!", comentários, silêncios e bocas em suspiro.
 Suspiro-te com raiva...por cá fiquei, e tu no elevador cavernoso.
 Só, e ainda, frio.
A neve a chegar e, quando vier, como acenderei a estufa? Como buscarei lenha? Como  acenderei o fogão para aquecer água? Ainda a água a ferver e que é preciso levar para a banheira do pequeno.
Como me cubro em noite fria?
 a sirene volta a tocar e chama outros homens. Persistente, mordaz, insatisfeita. E tu, num elevador. Enjaulado, animalizado.
 "É só subir, subir até a padaria!"
 Seria só subir até a superfície, para respirares. estaria com água quente do fogão. aqueci-a com a lenha que trouxe do monte do castanheiros. Não sozinha. O pequeno comigo, no peito com o lenço de flanela. Aqui estaria para te refrescar do carvão. E, com esse pó me cobriria na felicidade de te cuidar.

Dou-te os meus pés

Dou-te os meus pés.
E com eles descreverás adornos, e ganchos, e contornos. Irás circunscrever,  com batidas mais ou menos fortes,  os teus rodeios e neles acharei formas novas de me movimentar, de existir, de me relacionar.
Dos meus pés, aceita essa bússola em como te seguirei e em como estarei alinhada. Conectada. Colada, a ler o teu corpo e a tuas indicações. Do que dizem quando a "posição do ombro", da mão fechada sobre a minha, da presença da mão aberta nas minhas costas. E a minha mão, também a segurar-te, enquanto me seguro a ti e te dou em absoluto a minha presença silenciosa e alerta. Consciente.
Dos teus pés, sinto que preciso travar esse ímpeto de querer ser eu a indicar caminho. E assim,
Dou-te os pés para que, com eles, possas coreografar novos arranjos de movimentos e aprimorar o meu sentido de entrega.

Tábua rasa


Sufoco, se não a encontra. Se não se encontram.
Fará tábua rasa de todas as historietas com as  outra mulheres. Que teve, em lençóis de linho.
E de novo, com ela, na rua da picaria...
Em mesa de pinho e em tábuas com odores intensos de ruralidade, esse reencontro tão líquido e em liberdade. Depois da apresentação dos queijos, do presunto e do vinho,  vertem o que viveram no hiato entre eles.
E se demorarão a ver o queijo a ser fatiado e o requeijão a ser embalado. Terapeuticamente. E pensam em como curar-se, lentamente e demoradamente.